Batata-doce: a raiz da humanidade

Batata-doce

Estás à procura de uma alma gémea doce, saudável e humilde com quem passares o teu tempo? És um apaixonado por batatas? Não procures mais do que a batata-doce. Claro, é um pouco áspera nas extremidades e, tecnicamente, não se qualifica como uma “pessoa” ou uma mera batata, mas podes ter a certeza que este vegetal de raízes fortes tem vindo a conectar culturas e a sustentar civilizações há muito tempo.


Nativa da América Central e do Sul, o cultivo da batata-doce (Ipomoea batata) prospera em regiões tropicais e temperadas quentes. Este alimento tem vindo a evoluir e tornou-se o alimento de primeira necessidade mais eficiente em termos de rendimento calórico por área de terra. A grande raiz tuberosa desta planta atua como um armazenamento de energia para a ajudar a sobreviver em condições de stress. Como resultado, a raiz comestível é extremamente rica em nutrientes, tornando-se realmente um superalimento. Além da raiz amilácea, que pode ser facilmente assada, cozida, frita ou transformada em purê para pratos tanto doces como salgados, os rebentos e as folhas da planta também podem ser, por vezes, consumidos como verduras.



Enraizado em Aventura


Embora este dom da natureza possa ser facilmente elogiado apenas pelo seu sabor e valor nutricional, uma rápida vista de olhos pela história da batata-doce pode ajudar-nos a apreciarmos o papel importante que esta modesta raiz tem desempenhado nos últimos dois mil anos. Originalmente cultivada por povos indígenas da América Central e do Sul, a batata-doce entrou na dieta europeia depois de ser descoberta por Cristóvão Colombo no final do século XV.


No entanto, quase 300 anos depois, o capitão Cook redescobriu a cultura da batata-doce em várias ilhas da Polinésia, onde era cultivada há séculos. Surgiu uma questão importante que confundiria botânicos, historiadores e antropólogos durante décadas: como é que esta planta atravessou milhares de quilômetros de oceano e se estabeleceu nas remotas e inabitadas ilhas da Polinésia?


Uma pista de que a batata-doce foi transportada por pessoas através dos continentes é a semelhança entre a fonia da palavra batata-doce em Quíchua, Cumar, e seu equivalente em Maori, Kumara. Neste cenário, os antigos marinheiros viajavam milhares de quilómetros utilizando apenas estrelas, nuvens, ondas, pássaros e folhagens flutuantes como indicações dos caminhos a tomar. Em 1947, o explorador norueguês Thor Heyerdahl comprovou que isso era possível quando partiu na expedição Kon-Tiki, saindo da América do Sul numa jangada feita à mão até chegar à Polinésia 3 meses depois.


Graças a um estudo genómico publicado na revista Nature há dois anos, existem agora evidências genéticas de que os polinésios fizeram contato com indígenas americanos muito antes do que qualquer europeu. E qual é a única coisa que sabemos que as duas civilizações consideravam valiosas o suficiente para negociar? Isso mesmo, a batata-doce. E já estavam tão certos! 



Mais do que só Doce


Do ponto de vista agrícola, a batata-doce é uma cultura muito fácil de cultivar. Em vez de sementes, a planta de batata-doce pode ser cultivada a partir de cortes de caule que se desenvolvem rapidamente para cobrir o solo com folhas largas e comestíveis, contendo as ervas daninhas subjacentes. Não é uma surpresa que rapidamente se tenha tornado um elemento básico de todas as culturas com que se cruzou, tendo até ganhado um lugar próprio na mitologia maori. Um provérbio maori em particular: “O Kumara não fala de sua própria doçura” é bastante revelador das muitas virtudes da planta, nomeadamente da sua qualidade nutricional.


A batata-doce possui uma série de benefícios para a saúde que a diferenciam de outros vegetais ricos em amido. Mais conhecida pelo seu seu alto teor de carotenóides e antocianinas, a batata-doce é uma ótima fonte de antioxidantes. Esses pigmentos oferecem à raiz as suas cores laranja e roxa distintas, respectivamente, mas também são ótimos para neutralizar os radicais livres que levam ao declínio cognitivo e à perda de memória. Quando digeridos, eles são transformados em vitamina A, que desempenha um papel crucial na melhoria da visão noturna, mantendo o crescimento celular saudável e a função do sistema imunológico. Na verdade, uma batata-doce assada contém mais do que a dose diária de vitamina A recomendada, juntamente com uma boa quantidade de vitaminas C e B6.


A batata-doce também contém vários minerais que regulam processos como a produção de hormonas e de glóbulos vermelhos, regulação de fluidos, crescimento ósseo e a função nervosa. Mas talvez o benefício mais notável desta fonte de alta energia seja a fibra. Uma batata-doce pode conter cerca de 15% do valor diário de fibras insolúveis e solúveis. Esse fornecimento de ambos os tipos de fibra é crucial para promover a regulação intestinal e manter um microbioma intestinal saudável. De facto, a fibra solúvel tem sido associada a um risco reduzido de problemas graves de saúde, como doenças cardíacas, diabetes e cancro.



Behind the scenes


A responsável por introduzir esses superpoderes nos nossos cabazes é a Daniela Policarpo. A Daniela tem partilhado as suas saborosas batatas-doces, abóboras e espinafres com a Equal Food desde o início. Desde 2002, ela cultiva, localmente, comida deliciosa n’A Dos Cunhados, em Torres Vedras, e estamos muito gratos por poder ajudá-la a reduzir a quantidade que nunca chega aos nossos estômagos.

daniela policarpo-produção de batata-doce