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Como criar hábitos saudáveis sem transformar a hora da refeição numa batalha

Como criar hábitos saudáveis sem transformar a hora da refeição numa batalha

 

 

Para muitos pais, a hora da refeição pode rapidamente transformar-se num momento de tensão. Entre recusas, caretas e negociações intermináveis, é fácil cair na tentação de insistir para que a criança coma determinados alimentos. Contudo, quando a alimentação se torna uma fonte constante de conflito, o efeito pode ser exatamente o contrário do desejado e, em vez de desenvolver hábitos saudáveis, a criança pode começar a associar as refeições a sentimentos de pressão e desconforto.

Criar uma relação positiva com a comida começa por compreender que é natural as crianças passarem por fases de maior seletividade alimentar. Na verdade, à medida que crescem, procuram afirmar a sua independência e isso também se reflete nas escolhas que fazem à mesa. Por esse motivo, recusar um alimento novo ou preferir determinados sabores não significa necessariamente que exista um problema. Pelo contrário, faz parte do processo de descoberta e aprendizagem.

Nestas situações, o exemplo que os adultos dão desempenha um papel fundamental, uma vez que as crianças observam muito mais do que aquilo que ouvem. Assim, quando veem os pais a consumir fruta, legumes e outros alimentos variados com naturalidade, tendem a encarar essas escolhas como algo normal. No entanto, se a alimentação saudável for apresentada como uma obrigação, será mais difícil despertar interesse e curiosidade.

Outro aspeto importante é evitar a pressão. Frases como "come só mais um bocadinho" ou "não sais da mesa enquanto não acabares o prato" podem parecer inofensivas, mas acabam por retirar à criança a capacidade de reconhecer os seus próprios sinais de fome e saciedade. Em vez disso, é preferível oferecer opções equilibradas e permitir que seja a criança a decidir quanto quer comer, sendo esta uma abordagem ~que promove a autonomia e reduz muitos dos conflitos associados às refeições.

A introdução de novos alimentos também deve ser realizada com paciência. Efetivamente, nem sempre uma criança aceita um sabor diferente à primeira tentativa, o que não significa que nunca o venha a fazer. Muitas vezes, é necessário apresentar o mesmo alimento várias vezes, em contextos diferentes e sem qualquer pressão. Aos poucos, com o simples facto de o ver regularmente no prato já contribui para aumentar a familiaridade e a aceitação ao longo do tempo.

Além disso, envolver as crianças na preparação das refeições pode também fazer toda a diferença, levando-as a participar na escolha dos ingredientes, a ajudar a lavar legumes ou colaborar em pequenas tarefas na cozinha. Esta é, pois, uma forma de transformar a alimentação numa experiência de descoberta e não numa imposição.

No fundo, criar hábitos saudáveis não passa por controlar cada garfada, mas sim por construir um ambiente positivo à volta da alimentação. Quando as refeições são momentos de partilha, conversa e tranquilidade, as crianças sentem-se mais disponíveis para explorar novos sabores e desenvolver uma relação equilibrada com a comida. É verdade que os resultados podem não surgir de um dia para o outro, mas a consistência, a paciência e o exemplo são ferramentas muito mais eficazes do que qualquer batalha à mesa, e o tempo dará os seus frutos.

 

Ana Catarina Mesquita – Doutorada em Estudos Globais e investigadora em Educação

Ana Catarina Mesquita é Doutorada e Investigadora em Estudos Globais, com especialização nas áreas da ciências sociais e educação. O seu trabalho centra-se nas transformações contemporâneas, com particular atenção ao impacto da globalização na educação e nas dinâmicas culturais nas novas gerações. É também docente no ensino superior-
É cronista da área de educação e parentalidade da revista Luxwoman e tem presença regular nos meios de comunicação social, como o Expresso, Visão, JN, Público, e o programa “Para si” do canal V+ TVI, entre outros, como comentadora de temas ligados à educação.

 

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